O Karate-Do é, sobretudo, uma arte marcial que põe à prova o caráter, a personalidade, a alma e o organismo de quem o pratica, fazendo com que uma luta interna exista com o praticante, levando-o a desafiar e vencer a si mesmo.
Como diz seu nome: Kara (vazio) e Te (mãos), esta arte marcial é o meio de luta sem armas. Nela utilizamos os pés, as mãos, os joelhos, os cotovelos, os punhos e a própria cabeça. Vamos evitar a comparação com as outras artes marciais e tentar mostrar o lado maravilhoso desta modalidade. Para evidenciar que não precisamos e nem devemos comparar as artes marciais, bastaria lembrarmos a sincera amizade que existiu ao longo de suas vidas entre o Mestre de Judô Jigoro Kano e o Mestre de Karate Gichin Funakoshi.
No Karate-Do usamos todo o nosso corpo e o utilizamos como se fosse uma verdadeira máquina de combate, sabiamente dirigida. Cada golpe vigoroso tem seu endereço num ponto vital. E para isso basta lembrar que a sua origem nasceu da vontade dos camponeses de Okinawa em unir saúde física e mental, assim como da necessidade de defender seu próprio corpo, já que as armas lhes eram negadas.
Com golpes vigorosos e devastadores, sobrepujavam o adversário armado, causando não menos que rupturas, contusões, etc. É tanto um método de ataque como de defesa pessoal, sendo esta um pouco difícil, uma vez que seus golpes são muito vigorosos, podendo por vezes machucar um colega.
É uma maneira excelente de conservarmos a saúde geral, pois na parte física o Karate faz trabalhar nossos músculos e todas as articulações. Nossa coluna vertebral é obrigada a se movimentar e, por efeito das posturas obrigatórias, toma uma forma vertical. Nossa resistência é aumentada assim como o nosso fôlego, pois o preparo físico é intenso e o aumento da capacidade cardiológica é enorme.
Sendo sua base o “DO”, que significa caminho, um trabalho rigoroso de concentração e orientação espiritual é trilhado, e é certo que uma grande força física e poder mental são obtidos. E, desta forma, rápidos resultados são conquistados em curto espaço de tempo.
O verdadeiro propósito do Karate-Do é treinar de tal forma que possibilite ao praticante viver de maneira agradável e digna, sem criar problemas a outros, sem temer o forte ou o poderoso, sem se humilhar ante o homem de influência e sem se tornar cego pelas riquezas terrestres.
Existe o equilíbrio através das palavras “In” e “You”, ou Noite e Dia. Estes dois, em conjunto, formam o Universo, numa combinação de positivo e negativo. Como o dia completa a noite, simboliza a filosofia do Karate-Do, que é a de brilhar tal como o Sol e ser repleto de amor, paz e graça, tal como a Lua – um estado de arte a ser seguido através das buscas dos princípios e da verdade realista da grande Natureza.
Famosa expressão do Mestre Funakoshi – “Karate Ni Sente Nashi” – explica claramente o objetivo do Karate-Do, que é conter o espírito de agressão. O Karate-Do caracteriza-se por procedimento de respeito e etiqueta, porque era praticado pelos nobres. Dessa forma, nota-se a atitude de respeito nas práticas de “Kata” (luta imaginária), as quais sempre se iniciam com técnicas de defesa, mostrando-nos ser incabíveis as reações agressivas, qualquer que seja a situação, época ou lugar.
Entre os praticantes de Karate-Do existem elementos que, agindo sob o descontrole emocional, se envolvem em conflitos físicos. Isto, todavia, é inadmissível, sendo necessária uma atitude consciente para que haja a real avaliação da causa, possibilitando discernir-se sobre o melhor modo de agir. É muito comum que o principiante no Karate-Do, notando seu rápido progresso, seja levado por uma onda de impetuosidade, sentindo a necessidade de pôr em prática os conhecimentos adquiridos. Esta idéia distorcida deve ser sanada a tempo para que não venha afastá-lo do real objetivo do Karate-Do.
No Karate-Do não existe agressão na sua extensão e sim nobreza de espírito, domínio da agressividade, modéstia e perseverança; possuir suavidade no seu exterior tendo, quando necessário, coragem de enfrentar milhões de adversários e vibrar em seu interior.
Treinar com a base filosófica ou treinar somente para vencer outra pessoa, após anos de dedicação, produz conseqüências bem diferenciadas. O primeiro proporcionará progresso espiritual e o segundo, o desajuste social, problemas psicológicos e frustrações.
Competir contra a pessoa e obter bons resultados com relação ao outro, aferindo habilidades, não serão metas finais das competições. A prática regular, ao longo da vida, gera a compreensão dos fenômenos da vida social, do meio ambiente. Ensina a refletir a descobrir mudanças constantes no destino da própria vida. A prática regular do Karate ajuda a adquirir e obter a verdadeira finalidade na vida em sociedade.
No meu livro Karate-Do História Geral e no Brasil , pela Editora Realejo, faço uma profunda abordagem histórica, temporal e cultural desta arte marcial e dirigido a todos aqueles que desejam entender o Karate-Do com o intuito de se aprofundar no estudo e pesquisa desta modalidade. Faz-se necessário a compreensão da história, da geografia e da cultura dos povos que contribuíram para a formação do Karate-Do para se ter uma visão completa desta arte marcial. Para se entender o porquê de tanta variância de estilos, é preciso entender a origem e toda a trajetória das artes marciais. Apresento aos leitores do livro citado, a saga do Karate-Do estabelecendo raízes a partir dos séculos V e VI depois de Cristo, quando se encontram os primeiros indícios de lutas na Índia. Esta luta era chamada “Vajramushti”, cuja tradução aproximada poderia ser “aquele cujo punho cerrado é inflexível”. Vajramushti foi o estilo de luta do Kshatriya, uma casta de guerreiros da Índia. Em 520 d.C., um monge budista chamado Bodhidharma viajou da Índia para a China para ensinar Budismo no Templo Shaolin (Shorinji). A lenda conta que, quando ele chegou, encontrou os monges do Templo numa condição de saúde tão precária, devido às longas horas que eles passavam imóveis durante a meditação, que ele imediatamente se preocupou em melhorar a saúde deles através de uma combinação exercícios de respiração profunda, yoga e uma série de movimentos conhecidos como “As Dezoito Mãos de Lo Han” (Lo Han foi um famoso discípulo de Buda). Esses ensinamentos foram reunidos em um só e os monges logo se descobriram capazes de se defender contra os muitos bandidos nômades que os consideravam uma presa fácil.
Os ensinamentos de Bodhidharma são reconhecidos pelos historiadores
como a base de um estilo de arte marcial chamado Shaolin Kung Fu. Diferentes estilos de Kung Fu se desenvolveram quando as personalidades e as nuanças dos monges emergiram. Havia dois templos Shaolin, um na província de Honan e outro em Fukien. Entre 840 e 846 d.C., ambos os templos, assim como muitos milhares de templos menores, foram saqueados e queimados. Isto foi supervisionado pelo Governo Imperial Chinês, que na época tinha uma política de perseguição e importunação sobre os Budistas. Os templos de Honan e Fukien foram mais tarde reconstruídos somente para serem destruídos por completo pelos Manchus durante a Dinastia Ming de 1368 a 1644 d.C.. Somente cinco monges escaparam, todos os outros foram massacrados pelo imenso exército Manchu. Os cinco sobreviventes tornaram-se conhecidos como “Os Cinco Ancestrais”. Eles vagaram por toda China, cada um ensinando sua própria forma de Kung Fu. Considera-se que este fato deu origem aos cinco estilos básicos de Kung Fu: Tigre, Dragão, Leopardo, Serpente e Grou. Com a repressão do Império Ming sobre a seita Budista, alguns sobreviventes do templo Shaolin e de outros imigraram para o Japão, onde a história do Karatê-Do começa na ilha chamada Okinawa, que fica no centro de um arquipélago denominado pelos chineses de Ryukyu, que se estende desde o extremo sul do Japão até a ilha de Taiwan. Depois disso, o Karate-Do conquistou o Japão e se espalhou pelo mundo. Os leitores deste livro citado irão se aprofundar um pouco mais nessa história que antecede o início do Karate-Do no Japão, decorrendo um pouco mais pela Índia, China e Okinawa,considerada o berço do Karate-Do, para poder entender a origem desta luta marcial. Em seguida veremos o início do Karate-Do no Japão, sua difusão para o mundo e a sua chegada e desenvolvimento no Brasil.
No livro Karate História Geral e no Brasil, o leitor desvendará os segredos da cultura oriental, conhecerá a biografia de grandes mestres, com suas respectivas datas de nascimento e falecimento, que contribuíram para o crescimento do Karate-Do, as guerras e disputas pelo poder que influenciaram o desenvolvimento desta arte marcial, o surgimento e o porquê de vários estilos de Karate-Do,as aventuras de mestres japoneses em países para eles desconhecidos e estranhos e a expansão do Karate-Do em território brasileiro. É um livro que recomendo para aqueles que querem se aprofundar no estudo do Karate-Do.
A primeira dificuldade que o pretendente a praticar Karate-Do encontra é justamente decidir qual estilo escolher. Temos poucos livros que realmente abordem o assunto, e são poucos os que comparam os estilos.
O que, de forma geral, ocorre é o aluno começar a praticar o Karate primeiro, para depois saber qual estilo está praticando. Somente aqueles que já o praticam, sabem da existência numerosa de escolas e estilos. Qual iniciante poderá perceber se a direção daquele Dojo (local de treino), que pratica um Karate-Do de determinado estilo, o faz dentro dos princípíos corretos.
Na verdade, todos os estilos são bons e têm sua performance técnica alicerçada no perfil de sua história. O que difere as escolas não são os estilos, mas sim os métodos de orientação. Às vezes, um Dojô bem localizado, com uma boa propaganda e bem decorado esconde uma orientação de qualidade sofrível e não recomendada.
Muitas vezes o primeiro contato com um “Sensei” (professor) pode nos levar a caminhos duvidosos pelos “caminhos” do Karate-Do. Então sabemos o quanto é importante uma boa escolha da escola e do método, independente do estilo, para que possamos usufruir de todos os benefícios, tanto físicos como mentais, que se adquirem na prática bem orientada desta arte marcial.
É evidente que, se não conseguirmos um caminho bem traçado jamais alcançaremos aquele estado espiritual e nos depararemos então com o simples significado de podermos nos defender e fazer exercícios.
Uma das razões que me fizeram escrever este livro foi justamente poder contribuir, esclarecendo e dando subsídios a esse grande número de pretendentes a iniciantes no Karate, para fazer uma boa escolha do seu caminho. A minha intenção é dar ao leitor a oportunidade de possuir um meio orientativo baseado em opiniões advindas da sinceridade, estudo, prática e pesquisa de muitos anos dedicados às artes marciais.
Na procura da escola devemos estar atentos para certos pontos essenciais que nos indicarão, na verdade, qual é a escola conveniente. Existem aquelas que olham para o lado das demonstrações; outras se preocupam com o caráter competitivo; existem ainda aquelas que valorizam o aspecto puramente comercial; enquanto outras primam pelo luxo e pelo lado material das coisas. O importante, no entanto, é discernir qual é a escola que ensina os reais caminhos daquele estado supremo que é a verdadeira senda do Karate. Somente alguns, por conhecimento de causa, vão certos para a direção escolhida.
A escola digna é aquela aberta ao debate e que resiste a um exame bem profundo, podendo resistir ao diálogo com raciocínios diversos sobre um mesmo tema e abertas às conjunturas sobre todos os termos. Dizemos que muitos são os métodos e sabemos que no fundo todos são bons quando neles existe o princípio básico do todo e quando no seu todo há uma resposta científica, física e moral que acompanha a evolução natural da humanidade.
Os métodos, quando são sérios e bons, diferem entre si nesta ou naquela parte, mas no seu núcleo são iguais. As maneiras diferem mas o significado permanece. Assim sendo, seguindo estas considerações aqui preconizadas, qualquer um poderá chegar. Independentemente do método, a um caminho certo. Todas estas considerações feitas, quando fazem parte de uma escola, possuirão, na verdade, as colunas de base de um bom Karate.
Quando queremos escolher uma escola para nossos filhos, procuramos sempre o melhor lugar especializado. Assim deve ser no caso da escolha de uma escola de Karate. Devemos procurar uma academia especializada. Hoje em dia temos vários clubes, academias com várias atividades, complexos escolares que têm seu departamento de Karate. A grande maioria destes estabelecimentos tem sempre na direção dos deferidos departamentos homens especializados no Karate. E, às vezes, por comodidade, conforto e disponibilidade se torna mais fácil o indivíduo conciliar suas atividades e optar por treinar nestas escolas.Eu mesmo, desde 1979, mantenho o Departamento de Karate-Do na Universidade e Colégio Santa Cecília, que funciona como uma escolinha , por onde já passaram mais de 2000 alunos. Agora , quando o aluno quer se dedicar e especializar realmente no Karate-Do, ele migra para a Associação Resistência, que onde treinam os faixas pretas e atletas de competição.
Neste caso, para aqueles que almejam resultados sérios, e continuam treinando em escolinhas, seria melhor em cada temporada fazer estágio em uma academia específica de Karate para se especializar e testar aquilo que aprenderam. Não que isso importe em diminuir os clubes, academias ou complexos escolares. Não, pelo contrário, há muitos que suplantam pelas pesquisas e seriedade de grandes entidades. Mas essa á a realidade brasileira.
Tomemos como exemplo o Japão, que é totalmente diferente do nosso país. Lá o Karate considerado muito forte é o universitário, face ao nível de prática e competição existente. Já no Brasil, muitas vezes o atleta para se dedicar realmente ao esporte tem dificuldades no estudo e são poucos aqueles que conseguem possuir um nível universitário, pois têm que treinar muito e ainda se preocupar em conseguir patrocinadores para sua sobrevivência.
Desde que seja graduado em Karate-Do, a pessoa pode abrir uma academia portanto devemos ter alguns cuidados na escolha de uma academia de Karate-Do. Assim, antes de se matricular ou à seu filho numa academia de Karate-Do, verifique:
O Dojô é o lugar onde se pratica o Karate-Do. Esta palavra é oriunda do Budismo e significa “Lugar da Iluminação”. São de suma importância à hierarquia existente nos Dojôs e as normas e procedimentos necessários para seguir um caminho de evolução dentro dele.
Vamos mostrar, como exemplo, os aspectos técnicos de aprendizagem do Karate-Do em meu Dojô. Com o estabelecimento de normas e procedimentos teremos um ensino de qualidade, embasados em profundos conceitos filosóficos. O Dojo-Kun são os princípios, os lemas que norteiam e dirigem o karateca dentro de seu aprendizado. Em meu Dojô, o Dojo-Kun deve ser colocado por escrito no Kamiza, na parte frontal do Dojô, ao lado direito do Kamizama ou abaixo dele. O Kamizama é o nome do templo, geralmente feito de madeira, que representa a nossa ligação com o Oriente, a linhagem do Karate, o espírito das artes marciais. Devemos colocá-lo no Kamiza, região frontal e central do Dojô. Deve ficar de preferência longe da porta de entrada para não ter contato com influências negativas que venham a adentrar ou se posicionar na entrada do Dojô. É recomendável que, durante a saudação final da aula, depois do Mokussô,o aluno mais graduado depois do Sensei ou um dos alunos, escolhido pelo Sensei, deve falar o Dojo-Kun em voz alta, clara e pousada para auxiliar a concentração e facilitar a reflexão sobre os princípios. Cada lema deve ser repetido por todos os alunos. São eles:
Procedimentos para a Aula no Dojô
Zazen: deve ser feito em todo o início da aula. Serve para se desligar de todos os pensamentos e torná-lo mais receptivo aos ensinamentos.
Mokussô: o efeito é justamente o contrário, você deve se concentrar naquilo que lhe foi ensinado para que aquilo seja guardado em sua mente em um estado mais profundo.
A vestimenta do karate é chamada de Karate-Gui, ou popularmente de kimono, deve sempre estar branca e limpa.
O nosso Dojô segue um critério de hierarquia baseados em fatores que são internacionais e fundamentais para o desenvolvimento da instituição. A nossa hierarquia passa por 18 ( dezoito ) níveis de graduação que englobam as faixas, chamadas de “obi” em japonês, coloridas e pretas, e os títulos, que são:
Para se ter uma hierarquia completa dentro de cada nível tem um critério estabelecido para saber quem está posicionado melhor graduado no Dojo. O primeiro fator para avaliar o mais graduado dentro de cada graduação é o tempo, é considerado o mais graduado aquele que obteve há mais tempo aquela determinada graduação. Se a graduação foi obtida ao mesmo tempo o segundo fator para avaliar o mais graduado é aquele que obtiver a nota mais alta nos exames de kyu ou dan. Se persistir o empate o que obteve melhor nota no exame anterior, e se isso ainda não resolver o fator que define o mais graduado será aquele que tiver mais idade.
Observação Importante: Os 18 ( dezoito ) níveis de graduação são os critérios de hierarquia válidos em todos os Dojôs de Karate-Do. As classificações em competições são importantes para o desenvolvimento individual do ser humano, pesam na convocação para a graduação, mas não interferem na hierarquia. Como exemplo, podemos ter um aluno faixa preta 2º Dan que não compete e um faixa preta 1º Dan que tenha no currículo o título de campeão brasileiro. Na hierarquia do Dojô, o faixa preta 2º Dan é superior ao 1º Dan, mesmo este sendo campeão brasileiro.
ESTE TEXTO PERTENCE AO LIVRO “KARATE-DO O CAMINHO DA MÃO VAZIA, DE PAULO BARTOLO”.